O desafio das Silent Letters em inglês
Castôu, aislênd, rauf. Estas transcrições são minhas, mas qualquer estudante de inglês, ao pronunciá-las saberá do que se trata. A relação spelling x pronunciation de um número considerável de palavras que formam o léxico da língua inglesa é intrigante o suficiente para gerar as pronuncias equivocadas citadas acima. Inglês é recheado das chamadas letras mudas ou silenciosas, caracteres que são grafados, porém não são pronunciados, exigindo do aprendiz um olhar atencioso e uma energia extra para quebrar ciclos de erros cristalizados durante a vida.
As palavras castle, island e half (castelo, ilha e metade/meio em português) podem ilustrar bem o conflito: em castle, a letra “t” apesar de estar grafada, não é pronunciada, o que se resolve numa pronúncia mais ou menos como kÁssou. Com island, com a letra “i” pronunciada como “ai” e o “s” completamente inaudível, eu teria que ouvir algo como AIlãnd. E o half, ahhh o Half! É só tirar o “l” e sonorizar devidamente o “h” inglês: ráaf.

O mesmo senso de maravilhamento, surpresa e as vezes confusão, ocorre com outros casos clássicos como iron (vide por exemplo os fãs apaixonados da banda Iron Maiden), knife, walk, listen, Wednesday, muscle, receipt e até sandwich.

As letras mudas não são um aspecto da língua inglesa que lá foi adicionado para complicar a vida dos seus falantes. Elas representam um aspecto evolutivo da língua, uma linhagem de desenvolvimento característica a qualquer idioma. Na maioria das vezes, a forma que se manteve, através dos séculos, na grafia, era a forma como era pronunciada em versões vernáculas mais arcaicas. Então, por exemplo, a palavra em inglês para “faca”, tão hodiernamente pronunciada com o sonoro “k” do início, era ouvida assim mesmo, algo como: kináif.
Hoje, porém, excluímos o som do “k” e começamos a pronunciá-la a partir da letra “n”, resultando em algo como náif. Os falantes de inglês arcaico certamente se referiam ao dia da semana quarta-feira como Uédinisdei. Hoje, qualquer aluno iniciante da Cultura Inglesa pode dizer que estuda inglês on Uénisdai (mais uma vez, transcrições minhas) já que, com o tempo, a letra “d” de Wednesday ficou a comer a poeira da evolução da língua.

Há padrões a serem observados, claro. Por exemplo, as letras “k” (knee, knock) e “w” (wrong, wrist, sword) oferecem uma certa margem de segurança em sua mudez, geralmente em início de vocábulos. O “b” (subtle, debt), o “s” (island, aisle), e o “p” (psychology, pneumonia) também desaparecem bastante na pronúncia de palavras importantes no vocabulário básico da língua. Só para citar exemplos mais impactantes com o desafio de pronunciar de forma correta palavras que fazem parte do cotidiano dos falantes.
Mas o bom mesmo, para além dos charts de padrões e até regras, é assimilar esses lindos e fascinantes “desvios” da língua de forma orgânica e sensorial. Já tive alunos fãs da banda Iron Maiden, citada anteriormente, que migraram da reticência ao agraciamento quando aprenderam que a palavra Iron (ferro em inglês) prescinde totalmente da pronúncia da letra “r”. O próprio Bruce Dickinson esboçaria um sorriso e não uma grimaça ao ouvir fãs brasileiros pronunciarem corretamente (e carinhosamente) o nome imortal de sua banda.
Para mim sempre foi instigante combustível desvendar esses aspectos da língua inglesa. Aos nossos aprendizes, apresentamos sempre como delicioso desafio de desdobramentos elegantes, essenciais e recompensadores. Keep ca(l)m and ta(l)k about it!
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One Response
Muito pertinente ao nosso aprendizado, amei! Continuem postando mais, por favor 🙌